"Quarto" de Emma Donoghue

domingo, outubro 02, 2011


“Quarto”
Autora: Emma Donoghue
Tradução: Vera Ribeiro
Editora: Verus
349 páginas

Sinopse: Para Jack, um esperto menino de 5 anos, o quarto é o único mundo que conhece. É onde ele nasceu e cresceu, e onde vive com sua mãe, enquanto eles aprendem, leem, comem, dormem e brincam. À noite, sua mãe o fecha em segurança no guarda-roupa, onde ele deve estar dormindo quando o velho Nick vem visitá-la. O quarto é a casa de Jack, mas, para sua mãe, é a prisão onde o velho Nick a mantém há sete anos. Com determinação, criatividade e um imenso amor maternal, a mãe criou ali uma vida para Jack. Mas ela sabe que isso não é suficiente, para nenhum dos dois. Então, ela elabora um ousado plano de fuga, que conta com a bravura de seu filho e com uma boa dose de sorte. O que ela não percebe, porém, é como está despreparada para fazer o plano funcionar.

Sabem aquele tipo de livro que vocês ficam receosas de resenhar por causa do medo de não fazer jus à leitura? Então, é assim que me sinto em relação ao “Quarto” que, com certeza, foi o melhor livro que li nesse ano.

A sinopse por si só é bastante rica e dá uma boa ideia da história, mas vou acabar repetindo-a para dar minha opinião. Jack é um menino de 5 anos  e é através de sua voz que a história será contada. Quem já leu “O Menino do Pijama Listrada”, de John Boyne, ou qualquer outro livro narrado do ponto de vista de uma criança, sabe como fica interessante a perspectiva. Tanto no “Quarto” quanto no livro de John Boyne, as crianças vivem situações difíceis que, para os leitores ou narradores adultos, se resumem em uma palavra: pertubadoras. No entanto, quando nos deparamos com um narrador infantil, a situação, de alguma forma, é amenizada e, por incrível que pareça, consegue se tornar engraçada por causa da ingenuidade infantil em relação àquilo que vive.

Jack é fruto do abuso sexual sofrido por sua Mãe que, desde os 19 anos, vive em cativeiro – o Quarto – sob a vigilância de seu abusador – o Velho Nick, que a sequestrou por motivos sexuais e a mantém encarcerada desde então.  A história, que se passa nos EUA, começa a ser contada a partir do aniversário de cinco anos de Jack, quando sua Mãe já está com 26 anos e, segundo a descrição que o próprio menino faz (dentes estragados, ossos aparecendo...), aparenta fisicamente o sofrimento do enclausuramento forçado.  À noite, a Mãe recebe a ‘visita’ do Velho Nick, que traz consigo mantimentos e ‘presentes de domingo’, como pirulito, para os dois. Como forma de proteger Jack, a Mãe nunca permitiu que o Velho Nick visse a criança, nem mesmo quando bebê, mantendo-o dentro do Guarda-Roupa sob o pretexto de ser a hora de dormir. É de dentro do Guarda-Roupa que Jack acompanha as visitas noturnas do Velho e, mesmo sem compreender o que acontece no Quarto, começa a contar os rangidos da cama como forma de distração para dormir.

Como se pode perceber, a imaginação de Jack é muito criativa, mas limitada ao único mundo que conhece e, como forma de explicar as ‘coisas do mundo’, ele cria suas próprias hipóteses com a ingenuidade tipicamente infantil. Para ele, do outro lado da porta do Quarto (que permanece trancada por um sistema de alarmes), há o Espaço Sideral onde se encontram os planetas habitados por seres que ele só vê na televisão (planeta dos médicos, planeta dos animais, planeta dos desenhos animados).

“As florestas são da TV, e também as selvas e desertos e ruas e arranha-céus e carros. Os animais são da TV, menos as formigas e a Aranha e o Camundongo, mas agora ele foi embora. Os micróbios são reais, e o sangue. Os meninos são da TV, mas meio parecidos comigo, com o eu do Espelho, que também não é real, é só uma imagem”. (pg. 68)

É possível reparar que certas palavras são escritas com a inicial em letra maiúscula (Guarda-Roupa, Cama, Espelho, Tapete...). No início estranhei, mas, com o decorrer da leitura, percebi que todas elas têm um significado especial para Jack – são, digamos, pontos de referência nesse Quarto que, na verdade, é seu mundo. O único contato real que os personagens têm com o exterior é através da Claraboia que, durante o inverno, fica coberta de neve, impedindo até mesmo a entrada da luz solar – ou, nas palavras de Jack, o rosto de Deus. A Claraboia é também a esperança que a Mãe possui de conseguir chamar a atenção de alguém para o lugar, mesmo sem nunca ter tido sucesso. Para mim, a Mãe é um personagem à parte. Ela é corajosa e forte, mas, ao mesmo tempo, delicada, não deixando que a difícil situação em que se encontra abale a criação de Jack. De alguma forma, ela me lembrou o personagem Guido Orefice, do filme “A Vida é Bela”, que por meio de histórias, deixa o mundo mais leve para seu filho. Isso faz do livro, acima de tudo, uma lição de amor entre mãe e filho.

Apesar do tema ser forte, a leitura é extremamente cativante e emocionante. Impossível não criar empatia por Jack e sua Mãe e se imaginar vivendo semelhante situação.  Apesar da vontade de rir dos pensamentos de Jack*, que, por sinal, é extremamente inteligente para sua idade, também tive vontade de chorar pela situação extrema vivida por ele e de pegá-lo no colo. Foi, na realidade, um misto de emoções e uma torcida constante por um final feliz para a Mãe e o Super Jack. Com certeza, o livro pode ser lido e avaliado de forma psicológica, afinal atualmente não são raros os casos de abusos e cárcere privado.

Enfim, o “Quarto” é um livro que me marcou e que, a partir de agora, está na minha lista de favoritos. Recomendo a todos a leitura.

*Pensamento de Jack ao ganhar alguns livros: “Não é um livro muito excelente, mas é excelente ter tanto livro novo”.  (Apesar de concordar, tive que rir disso...)
By Débora


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6 comentários

  1. Oi ..

    Há muito tempo que eu tenho vontade de ler esse livro. Quando aconteceu o lançamento, o mesmo não tinha me chamado muito a atenção. Mas depois, quando começou a surgir resenhas positivas por todos os lados, meu interesse aumentou.

    Parece ser uma história muito linda e triste ao mesmo tempo. Não vejo a hora de poder lê-lo :)

    Parabéns pela resenha!

    João Victor
    http://amigodolivro.blogspot.com/

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  2. Olá,

    O livro parece ser bastante interessante, um pouco "pesada". A estória parece ser bem legal, mas não me interesso por livros desse tipo, não sei porque. Talvez eu leia, quando minha listinha de livros diminuir consideravelmente.

    Ótima resenha!

    Beijos.

    Sonhos de Garota

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  3. Quarto é realmente incrível, um dos melhores livros que eu já li na minha vida, sem dúvida...

    http://capaetitulo.blogspot.com

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  4. Débora, amei sua resenha!
    Eu ainda não li o livro, mas morro de vontade!
    Acredito que a idéia do autor de escrever a história pela visão de Jack foi incrível! Além de tornar o livro diferente, ameniza a forte temática, sem deixá-la menos emocionante, pelo que você disse!
    Está na lista de desejados ;)
    Beijão!

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  5. Gostei da resenha, faz um tempinho que me interessei por esse livro, e sua resenha me animou á comprá-lo....

    Beijoos;*
    Naty - Just Books !

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  6. Adoro livros de temas fortes, com diferentes abordagens de problemas sociais como esse. E o fato de ser voltado para a mentalidade de um menino de cinco anos fruto de um abuso é no mínimo diferente. A resenha ficou ótima, e não vejo a hora de comprá-lo!

    Beijos.

    Mariana Sampaio
    Blog Tijolinhos de Papel

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