"O Garoto no Convés" de John Boyne

terça-feira, novembro 06, 2012


“O Garoto no Convés”
Autor: John Boyne
Tradução: Luiz A. de Araújo
Editora: Companhia das Letras
493 páginas 

Sinopse: Em abril de 1789, semanas após concluir no Taiti uma curiosa missão com fins botânicos - coletar mudas de fruta-pão para alimentar os escravos nas colônias inglesas -, o navio de guerra britânico HMS Bounty foi palco de uma revolta de parte da tripulação contra o capitão William Bligh, que acabou deixado à própria sorte em um bote em alto-mar junto com os marinheiros ainda fiéis a seu comando. Sem provisões e instrumentos de navegação adequados, o grupo enfrentou 48 dias de duras provações até alcançar a costa do Timor. O episódio inspirou numerosos livros e filmes. Neste livro, a história da expedição é narrada do ponto de vista de John Jacob Turnstile, um garoto de Portsmouth, sul da Inglaterra, que sofre abusos de toda sorte, inclusive sexuais, no orfanato e pratica pequenos furtos nas ruas da cidade. Detido pela polícia após roubar um relógio, é salvo pela própria vítima do roubo quando esta lhe faz uma proposta: em vez de ficar encarcerado, embarcaria no HMS Bounty para passar pelo menos dezoito meses como criado particular do respeitado capitão Bligh. (leia mais aqui)


Olá pessoal, tudo bem com vocês?! 


Hoje, a resenha é sobre o livro “O Garoto no Convés”, do autor irlandês John Boyne. Pra quem não lembra, Boyne é também autor de “O Menino do Pijama Listrado”, obra que li há alguns anos atrás e que me encantou. Características como a leveza da escrita, o humor e a ingenuidade dos personagens narradores me cativaram logo no primeiro livro e fizeram com que eu partisse para a leitura de “O Garoto no Convés” com muitas expectativas boas. Felizmente, não me decepcionei e posso afirmar que hoje Boyne está na lista dos meus autores favoritos e o qual recomendo. 

Assim como em “O Menino do Pijama Listrado” – que tem, como pano de fundo, o holocausto, a história de “O Garoto no Convés” parte igualmente de um episódio histórico: o famoso motim no bounty do capitão Bligh, ocorrido em 1787, poucos anos antes da Revolução Francesa. Como resultado de meses de tensão e sob incentivo do oficial Fletcher Christian, capitão Bligh e 18 marinheiros foram deixados à deriva num pequeno barco, com pouca comida e pouca água, há milhas de distância da Inglaterra. 

No livro, porém, a história ganha um novo personagem: John Jacob Turnstile, menino, com 14 anos de idade, que leva a vida cometendo pequenas infrações na cidade de Portsmouth, Inglaterra. Porém, em uma dessas ‘aventuras’ ilegais, Turnstile acaba preso pela polícia e, como alternativa para o cumprimento da pena, é enviado a uma excursão marítima como ajudante de capitão. A excursão em questão é a viagem de dois anos do Bounty da Inglaterra a Otaheite (Taiti), onde seriam colhidas mudas de fruta-pão para depois serem enviadas ao Caribe. Sem nunca ter visto e nem posto os pés no mar, é Turnstile a voz que narrará a história, desde sua vida no sul da Inglaterra até a luta pela sobrevivência de dezoito homens em alto-mar. É sob sua perspectiva que experimentaremos e conheceremos a vida a bordo de um navio, a rotina de homens marinheiros que ficam meses sem pisar em terra firma. 

“Resolvi ir até lá pedir-lhes para fazerem o navio dar meia-volta e me deixarem no porto. Quando, porém, dei o primeiro passo no convés, outro balanço forte da embarcação me arremessou para trás, fazendo-me perder o equilíbrio e rolar escada abaixo, e eu caí sobre meu já machucado traseiro. Meu estômago tornou a virar e achei bom não ter comido nada desde cedo, de modo que não tinha o que vomitar. Ao olhar para cima, no entanto,a distância até o convés me desanimou e retornei para o lugar de onde tinha vindo, desmoronando na pequena tarimba perto da cabine do capitão, onde me deitei de lado, dando a cara para a parede e abraçando a barriga com força, rezando para que o navio ou meu estômago parassem de girar, o que fosse mais solícito.” (pg. 67) 

Com a leveza e a graça da ingenuidade de um narrador infanto-juvenil, somos expostos a relatos sobre hierarquia, homossexualismo, violência física e psicológica, traições e, da mesma forma, lealdade. Os fatos contados sob seu ponto de vista, com certeza, são amenizados pela sua inocência, nos fazendo rir até nos momentos mais tensos. Porém, ao longo da narrativa, fica evidente o amadurecimento do personagem principal, com sua passagem de menino a homem. 

“Eu olhei de relance para o Sr. Bligh; sua farda estava escura e manchada devido à energia que ele devia ter queimado durante a noite para nos devolver à segurança e a águas calmas. Seus olhos pareciam cansados e sua barba pedia uma navalha. Já o Sr. Christian era o próprio modelo do garboso oficial da Marinha, tal como os exibiam nas vitrines das alfaiatarias de Londres. Parecia que tinha passado a noite na cama limpíssima de um bordel parisiense e havia dormido oito horas depois de fazer aquilo não uma nem duas, mas três vezes. Tive certeza de que também exalava um vago perfume, e só Deus havia de saber onde o tinha arranjado.” (pg. 95) 

É incrível como John Boyne consegue nos transportar para a história e nos fazer viver as mesmas experiências junto com o narrador. O autor possui uma forma épica de contar histórias, misturando sua delicadeza e sutileza de narrar conflitos com o humor típico. Durante suas quase 500 páginas, o autor consegue manter o ritmo da narrativa, sempre num fluxo que não nos permite piscar, com muita ação e reviravoltas. Diversas vezes, fui transportada para cenários como os de “Oliver Twist”, “Moby Dick” e “O Velho e o Mar”. Com certeza, é uma leitura recomendada, principalmente para fãs de aventuras marítimas. 

Para quem não sabe, a história do motim no bounty já foi tema de adaptações cinematográficas. Entre elas, estão as versões de 1962 (com Marlon Brando) e de 1984 (com Anthony Hopkins e Mel Gibson). 

Fica então a dica de leitura e de filme ;) 






By Débora

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2 comentários

  1. Eu sou louca para ler o livro e assistir ao filme O Menino do Pijama Listrado, mas ainda não tive a oportunidade.

    Pelo que você diz o autor ter colocado um narrador infanto-juvenil suavizou um pouco o conteúdo do livro e gostei disso. E também é sempre bom quando vemos o personagem amadurecer ao longo da narrativa.

    Adorei a resenha!

    Beijão;*
    Naty.

    ResponderExcluir
  2. Oi Dé!
    Adorei sua resenha!
    Eu não li O Menino do Pijama Listrado porque assisti ao filme e sofri horrores. Achei triste demais, fiquei mal mesmo, então quis evitar a leitura pra não sofrer de novo.
    Esse segundo me pareceu mais possível de ser lido pelo contexto não ser tão triste (o meu problema com o outro é o fator "Guerra" e saber que é um contexto real).
    Porém, a história não me atraiu muito...
    Acho que, por enquanto, continuarei sem conhecer o trabalho do autor...
    Beijão!

    ResponderExcluir

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