"A Doçura do Mundo" de Thirty Umrigar

sexta-feira, fevereiro 15, 2013


"A Doçura do Mundo"
Autora: Thirty Umrigar
Tradução: Vera Ribeiro
Editora: Nova Fronteira
302 páginas

Sinopse: Após perder seu marido, Tehmina Sethna está emocionalmente fragilizada. Por isso, ela decide aceitar o convite de seu filho, Sorab, para passar um tempo com ele em Ohio, nos Estados Unidos. Lá, Sorab, um homem de 38 anos que fugira da Índia para mudar de vida, se casou com Susan. Os dois tiveram um filho, Cavas, e vivem uma vida perfeita ao estilo americano. O que parecia ser um recomeço, porém, deixa Tehmina numa situação delicada. Sem conseguir se adaptar à cultura ocidental, Tehmina sofre com a rejeição de sua nora e se sente sozinha no mundo, mesmo quando Sorab a convida para morar com ele. Ela tem que escolher entre a nova vida e o retorno à cidade de Bombaim, que cada vez mais lhe desperta saudades. É aí que Tehmina, ao ajudar dois meninos que moram na casa ao lado e são maltratados e negligenciados pela mãe, rompe, sem querer, as barreiras entre as duas culturas.Alternando as visões de Tehmina e de Sorab, A Doçura do Mundo é um romance rico, que celebra a família e a vida em comunidade. Neste novo livro, Thrity Umrigar prova mais uma vez por que é considerada uma das escritoras mais sensíveis da atualidade.


A história de "A Doçura do Mundo" é simples. Nela conhecemos Tehmina Sethna (Tammy), uma jovem senhora indiana que, após a morte repentina do marido Rustom, muda-se para os Estados Unidos, lugar onde vive atualmente o único filho (Sorab), a nora norte-americana (Susan) e o neto. Em Bombaim/Índia, ficam seus amigos, origens, casa, as lembranças e as tradições que a protegem em uma zona de conforto. Agora, em um novo país, com cultura totalmente diferente da sua, Tehmina precisa decidir se recomeça sua vida ao lado do filho, numa sociedade que a espanta e se espanta concomitantemente pela diferença dos hábitos. O que mais pesa para a decisão de Tammy é a falta da presença do marido, sempre tão forte e decidido, cuja opinião sempre fora essencial em sua vida. Agora sem Rustom, sua fortaleza durante anos, ela se sente perdida, desorientada e pressionada por aqueles que a amam e que desejam sua permanência junto a eles. É em torno da dúvida entre ficar nos EUA ou voltar para a Índia que a história se dará. 


O romance de Thrity Umrigar, narrado em 3ª pessoa, é de leitura rápida, porém mais reflexiva, sem grandes reviravoltas ou ações. Pelo contrário, a proposta da autora é em relizar a análise sobre a rotina, as situações e as dúvidas pelas quais uma pessoa passa num país estrangeiro onde começa a viver. Neste caso, a abordagem está no choque cultural entre oriente e ocidente, com reflexões sobre preconceitos, clichês e tabus, trazendo à discussão a visão do outro em relação aos seus costumes já arraigados, mas que passam despercebidos para si próprio e que tomam outras proporções na visão de outrem.

"O país inteiro começava a parecer um reality show, uma produção de Hollywood. Já não bastava, ao que parecia, os cidadãos serem Fulano de Tal ou Sorab Sethna. Agora, todos tinham que ser Tina Brown, ou Tom Cruise, ou Steve Jobs. Tudo era tecnologia de ponta. Todo o mundo precisava recauchutar completamente a própria imagem. Tudo funcionava vinte e quatro horas por dia; todos estavam ligados à rede e usavam conexões sem fio; todo o mundo era um ídolo, um "American Idol". Já não bastava viver a própria vida; agora, o sujeito tinha que ser um "Survivor".(pg. 75) 

"Chuva e neve. A maneira perfeita de descrever a diferença entre Bombaim e os Estados Unidos, pensou Tehmina. Uma era ruidosa, caótica, tumultuada e errática. A outra era calma, antisséptica, refinada e polida. Como é irônico!, pensou. Em Bombaim, onde tudo é perigoso, as pessoas levam a vida bindaas, despreocupadas, sem medo, quase sem pensar. Aqui, onde não há razão para se temer coisa alguma, essa gente tem medo da própria vida. Como podem sobreviver desse jeito, vigiando e pesando tudo? Do terrorismo aos micróbios ou à gripe, tudo assustava essas pessoas. Um país inteiro entrando em pânico por causa da escassez de vacinas contra a gripe." (pg. 94) 

Além disso, Umrigar realiza a descrição da relação entre familiares, gerações e as mudanças que a vida impõe e que nos obrigam a mudar os planos.

"Sorab olhou para Susan, que tanto se esforçava para compreendê-lo, e sentiu entre eles um abismo tão gigantesco quanto a distância entre Bombaim e Ohio. Como explicar a ela a fenda que se abria em seu coração toda vez que havia um conflito entre as duas mulheres que ele mais amava no mundo? Como descrever-lhe seus primeiros anos nos Estados Unidos, quando ele havia experimentado aquele desarraigamento que só os imigrantes sentem, a tal ponto que era como se sua cabeça tocasse os céus da América enquanto os pés estavam fincados em Bombaim, como se ele se equilibrasse sobre dois continentes?" (pg. 67)

"Sorab achou que estava pedindo demais à mãe. Abrir mão de sua pátria, dos amigos, de um apartamento com milhares de lembranças felizes, de uma cidade cuja própria existência pulsava no sangue dela, cujo ritmo enlouquecido e maníaco era o batimento de seu coração. E em troca de quê? Em troca... dele mesmo. E, até certo ponto, do neto. De repente, ele percebeu como sua oferta era pretensiosa. Que tinha realmente a oferecer à mãe, exceto o aconchego da família, a proximidade da pessoa a quem ela amava mais do que a própria vida? Será que era muito? Seria o bastante?" (pg. 183)

Acredito que a capacidade em relatar as angústias, dúvidas e percepções de forma tão sensível se deva, principalmente, ao fato de Thrity Umrigar ser uma autora indiana que migrou para os Estados Unidos. Ela está familiarizada com os problemas peculiares da identidade cultural, da sensação de 'sentir-se de fora', dos preconceitos e do conforto em sentir-se acolhido e bem aceito, e demonstra isso em seus livros, tornando o retrato de suas narrativas verdadeiro e delicado. Para quem já conhece o trabalho da autora, acredito que "A Doçura do Mundo" seja um livro bem mais leve quando comparado com "A Distância entre nós" - título que a tornou conhecida no mundo e que, por sinal, é um dos meus livros favoritos. Neste último, encontramos uma história mais densa, sobre vidas separadas por castas indianas, por diferenças de classes sociais. Porém, em ambos os livros, encontramos leituras emocionantes e cativantes, que elevam os sentimentos de bondade e amor e nunca de indeferença, raiva ou rancor. Vale a pena conhecer o trabalho dessa escritora!

By Débora

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2 comentários

  1. Oi Dé!
    Acho que não conhecia nem esse nem o outro livro da autora que você mencionou.
    Gostei de ver que o livro foca mais na parte reflexiva ao invés de ter mais ação. Acredito que isso não agradar a todos, principalmente quem busca leituras mais ágeis, mas, particularmente, eu adoro uma introspecção e uma reflexão hehe
    Beijão!

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  2. Eu gostei da resenha. O nome do livro é muito fofo *-*
    E o livro em si, parece ser do mesmo jeito.
    Quero ler.

    Beijinhos :3
    carinhodaspalavras.com.br

    ResponderExcluir

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