"O Segredo de Jasper Jones" de Craig Silvey

quinta-feira, outubro 08, 2015

"O Segredo de Jasper Jones"
Autor: Craig Silvey
Tradução: Domingos Demasi
Editora: Intrínseca
286 páginas


Sinopse: Numa noite, durante o intenso verão de 1965, Charlie Bucktin é acordado pela visita de Jasper Jones, o pária da pequena cidade de Corrigan, na Austrália. Seduzido pela rebeldia de Jasper, Charlie o acompanha e acaba descobrindo um crime. O segredo, compartilhado entre dois garotos tão diferentes, desperta em Charlie um turbilhão de dúvidas a respeito dos conceitos de verdade e mentira. Neste romance de crescimento, o menino franzino de 13 anos, leitor voraz, reflete sobre os acontecimentos por meio de referências a clássicos do gênero.





"...talvez realmente tivéssemos feito a coisa errada pelos motivos certos." (pg. 125)

Olá pessoal, tudo bem?!

Hoje trago para vocês a resenha de um livro que li sem ter nenhuma expectativa a respeito. Comprei em uma promoção por menos de dez reais e que grata surpresa tive ao começar a lê-lo. Estou falando de "O Segredo de Jasper Jones", do autor australiano Craig Silvey.

O livro, lançado no Brasil pela Editora Intrínseca, tem, como personagem principal e narrador, Charlie Buckitin, um adolescente de treze anos, nerd e tímido, que vive com seus pais na pequena e pacata cidade de Corrigan, na Austrália. Charlie tem como passatempo a leitura dos mais variados livros, alguns emprestados pelo pai, professor de literatura. Seu melhor amigo é Jeffrey Lu, filho de imigrantes vietnamitas e apaixonado por críquete. Apesar de ser um jovem franzino e com pouca altura, Jeffrey sonha em se tornar um famoso jogador do esporte. Tudo anda bem e confortavelmente na rotina de Charlie, até que, em dada noite, enquanto lê no meio da madrugada, ele é interrompido por batidas em sua janela. Surpreso, Charlie se depara com o garoto-problema da cidade, Jasper Jones, que aparenta ser confiante, forte e destemido, mas que desesperadamente pede que Charlie o acompanhe, pois precisa de sua ajuda. Naturalmente, Charlie fica inseguro e confuso sobre o porquê desse inesperado pedido, uma vez que ele e Jasper nunca conversaram antes. 

Apesar de ter todos os motivos para não ir, Charlie decide acompanhar Jasper Jones, que o leva até uma clareia escondida no meio de uma mata um pouco afastada da cidade. A clareia é o lugar secreto de Jones, onde ele se esconde do mundo e dos olhares e comentários maldosos a ele lançados diariamente. Lá, ele fuma, bebe e até dorme no tronco oco de uma árvore. Porém, a aparente tranquilidade do lugar é quebrada quando Charlie se depara com aquilo que Jasper queria tanto mostrar. Mesmo atordoado com a situação, Charlie acaba concordando com a proposta sugerida por Jasper, e agora eles têm um segredo que precisam dividir e lidar. Jamais Charlie poderia imaginar que sua tentativa em ajudar Jasper no meio da noite pudesse se transformar em algo tão sério, que mudaria drasticamente sua vida de adolescente.

"Esse temor é torpe. Quando ele bate, é como se alguém tivesse acionado o botão que controla a gravidade. Tudo mergulha pesada, dura e rapidamente. Isso exaure você. É aquela mesma sensação, aquele mesmo pânico triste que você enfrenta quando não consegue dormir, quando sua mente vagueia, e você se lembra, sem qualquer motivo, que vai morrer um dia. Que você chegará ao fim, será enterrado e esquecido. E tudo e todos que você conhece, tudo de que se lembra e tudo que ama serão nada. E, nesse ato de compreensão, algo o ataca internamente e torce seu coração, e você não consegue respirar direito. A compreensão é um forno frio para esse tijolo. É um impedimento. Não vai a lugar algum. E você chega à conclusão de que, daqui a cem anos, todos que estão atualmente em Corrigan, na Austrália, no mundo, cada parente, cada criança, cada animal, todos terão morrido. É uma sensação estranha, triste e indescritível, que deixa você vazio, mas pesado. É isso o que me assalta. Foi a isso que Jasper Jones me levou." (pg. 73)

Enquanto conta esse momento de sua vida para o leitor e responde as perguntas desse enredo misterioso, Charlie apresenta outros personagens importantes, que fazem parte de sua vida. Aos poucos, vamos conhecendo mais Jeffrey Lu, seu melhor amigo, que por ser vietnamita, é frequentemente humilhado e vítima de bullying, assim como sua família (a história se passa na década de 60). Também conhecemos Eliza Wishart, jovem rica e de prestígio, filha do governador, por quem, obviamente, Charlie cria grande afeição. Eliza também está em um momento delicado, pois sua irmã, Laura Wishart, encontra-se desaparecida e, apesar de todos os esforços empregados pela comunidade em sua busca, sua localização ainda é indefinida. O fato aumenta a sensação de angústia da história e dos personagens, pois não se sabe o que pode ter acontecido com a menina, nem tampouco quem teria sido o responsável.

O autor Craig Silvey certamente conseguiu criar personagens bem elaborados e uma história cujos pontos são todos resolvidos. Apesar de ser um enredo no qual os personagens centrais são praticamente crianças, o livro apresentou uma história densa, às vezes chocante e desconfortável, longe de ser boba ou frívola. Mesmo assim, o livro é capaz de proporcionar boas risadas e momentos tocantes. Não sei se foi o fato de eu ter me jogado no escuro para ler esse livro, sem ter tido nenhuma expectativa ou conhecimento sobre o que se tratava, mas com certeza a história me cativou e me surpreendeu positivamente. Criei empatia pelos jovens personagens, simples e reais, que lutam suas batalhas internas e que carregam segredos que ninguém conhece. Apesar de adolescentes, são meninos que questionam o senso de justiça, preconceitos, frustrações familiares, o que é certo e errado. É uma história de crescimento e amadurecimento que se dão durante o enfrentamento de uma difícil situação, mas que sobretudo valoriza o poder da amizade. 

"Acho que deve ser reconfortante acreditar verdadeiramente em Deus e Jesus e essas coisas todas. Deve preencher todo esse espaço para você não precisar se preocupar. Mas é um pouco como fechar uma porta por onde passa uma corrente de ar frio, não é? Continua frio lá fora, mas você não nota porque está aquecido." (pg. 140)

Certamente, leitura recomendada! 

Ahhh, o porquê de termos um pêssego na capa fará sentido no decorrer da história ;)

By Débora

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