"O Menino da Lista de Schindler", de Leon Leyson

sexta-feira, agosto 05, 2016

"O Menino da Lista de Schindler"
Autor: Leon Leyson (em parceria com Marilyn J. Harran e Elisabeth B. Leyson)
Tradução: Pedro Sette-Câmara
Editora: Rocco (selo Jovens Leitores)
253 páginas

Sinopse: Um pequeno vilarejo, os irmãos, os amigos, as corridas nos campos, os banhos de rio: essa é a verdadeira história de Leon, a história de um mundo despedaçado pela invasão dos nazistas. Quando em 1939 o exército alemão ocupou a Polônia, Leon tinha apenas dez anos. Logo ele e sua família foram confinados no gueto de Cracóvia junto a milhões de outros judeus. Com um pouco de sorte e muita coragem, o menino conseguiu sobreviver ao inferno e foi contratado para trabalhar na fábrica de Oskar Schindler, o famoso empreendedor que conseguiu salvar mais de mil e duzentos judeus dos campos de concentração. Neste testemunho que ficou por tanto tempo inédito, Leon Leyson nos conta sua extraordinária história, na qual, graças à força de um menino, o impossível se tornou possível. O Menino da Lista de Schindler é um legado de esperança e um chamado para que todos nós nos recordemos daqueles que não tiveram a chance do amanhã.


"... não havia nenhum jeito seguro de sobreviver num mundo que tinha se tornado completamente insano." (pg. 114)

Olá pessoal, tudo bem?!

Hoje a resenha que trago é do emocionante livro "O Menino da Lista de Schindler". Quem acompanha o blog, já deve saber que livros com a II Guerra Mundial como tema ou pano de fundo sempre despertam meu interesse. Apesar de já serem conhecidos todos os horrores sofridos por milhares de pessoas, é impossível não se emocionar a cada novo relato pessoal e traçar certas semelhanças com os dias atuais. Por causa disso, logo que vi "O Menino da Lista de Schindler" e li sua sinopse, soube que a leitura seria de meu interesse e, portanto, não pensei duas vezes antes de começar a lê-lo.

Antes de mais nada, é importante salientar que, diferentemente de outros livros que abordam a Segunda Guerra e o holocausto através dos olhos de crianças, como "A menina que roubava livros", "O menino dos fantoches de Varsóvia" ou "O menino do pijama listrado", "O Menino da Lista de Schindler" se trata de um livro autobiográfico, um testemunho real, corroborado por fotos e documentos da época, e escrito em primeira pessoa por Leon Leyson, sobrevivente de um dos momentos mais cruéis e turbulentos da nossa história recente.

Trazendo à tona suas memórias de infância e de adolescência vividas em guetos e centros de concentração, Leon dá vida e singularidade aos fatos que conhecemos através dos livros de história. Assim como Anne Frank, o autor descreve essas fases de sua vida, que a princípio seriam de inocência e descobertas, experimentadas em meio ao caos, à crueldade e ao medo. Porém, ao contrário de Anne, esse relato se dá através da rememoração do autor já idoso.

Longe do sentimentalismo que poderia naturalmente estar presente nesse tipo de relato, o autor descreve de forma direta, simples e crua os momentos vividos por ele e sua família, desde o tempo tranquilo vivido em um pequeno vilarejo da Polônia, depois na cidade grande de Cracóvia e, mais tarde, em um gueto e campo de concentração. É neste lugar que seu destino acaba cruzando com alguns dos nomes mais simbólicos do período, como os nazistas e dicotômicos Anom Goeth e Oskar Schindler. Enquanto Leon descreve Schindler como "diferente. Ele obviamente queria saber quem éramos. Seus atos mostravam que se importava conosco enquanto indivíduos" (pg. 153), ele também lembra dos momentos de pânico que sentia com a aproximação de Goeth:

"Eu tinha recebido ordens para tirar a neve com um grupo de homens. Sem roupas de inverno, minhas mãos estavam tão congeladas que eu mal conseguia segurar a pá. De repente, o Hauptsturmführer Goeth apareceu e, num capricho, exigiu que os guardas dessem vinte e cinco chibatadas em cada um de nós com atrozes chicotes de couro. Nenhum de nós conseguia entender a provocação, mas isso não importava. Como comandante, Goeth poderia fazer o que quisesse, com ou sem razão. Ele parecia adorar atormentar os indefesos. Ficou observando um pouco o espetáculo e concluiu que as chibatadas estavam lentas demais, então mandou os guardas trazerem mesas longas e alinhar-nos em fileiras de quatro. Junto a três homens com o dobro do meu tamanho e da minha idade, fui receber o castigo. Os chicotes tinham bolinhas na ponta, intensificando a dor e o estrago. Recebemos ordens de contar as chibatadas enquanto éramos chicoteados. Se a dor nos vencesse e errássemos um número, os guardas recomeçavam a contagem." (pg 135)

Todos esses fatos são contados com a lembrança das angústias, dúvidas e incertezas vivenciadas pelo autor. Passar sua infância e adolescência sob condições tão cruéis e, mesmo assim, ter força e fé para superá-las, nos faz refletir e agradecer os tempos atuais, mesmo com todos os problemas que a nossa sociedade enfrenta. O relato de luta pela sobrevivência e de esperança e coragem, mesmo nos piores momentos de fome, doença, medo, horror, violência, perda de pessoas queridas e da presença constante da morte, tem a capacidade de mexer com os nossos sentimentos ao lembrar que esse é o relato real de uma pessoa, mas que tantas outras passaram pelo mesmo.

"Quando saí do gueto, com seus muros coroados de lápides, e andei pelas ruas de Cracóvia, fiquei perplexo ao ver que a vida parecia idêntica à que eu conhecera antes de entrar lá. Era como se eu estivesse em uma viagem no tempo... ou como se o gueto ficasse em outro planeta. Eu olhava as pessoas limpas e bem-vestidas, ocupadas, indo de um lugar a outro. Todas pareciam tão normais e felizes. Será que não sabiam o que estávamos sofrendo a apenas alguns quarteirões de distância? Como poderiam não saber? Como poderiam não fazer nada para nos ajudar? Um bonde parou, e os passageiros embarcaram, ignorando nossa presença. Eles não mostravam nenhum interesse em quem éramos, para onde estávamos indo ou por quê. Era simplesmente incompreensível que nossa miséria, nosso confinamento e nossa dor fossem irrelevantes para suas vidas." (pg. 125)

De certa forma, a cada novo testemunho desse período da nossa história, a sensação de estarrecimento parece sempre nova, levantando reflexão e perguntas sobre como e o porquê tanto ódio e tantos absurdos disseminados em larga escala. Certamente, são leituras para serem feitas sempre, para que a lembrança desses fatos nos faça entender o poder das ideias e da intolerância.

                                 
   By Débora

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